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Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 059

O FENÔMENO DO DIA

Em Vênus, o dia é mais longo que o ano

No planeta Vênus, o segundo a partir do Sol, sob uma camada permanente de nuvens de ácido sulfúrico, medido por radar da Terra e por sondas em órbita

VERIFICADO, RADAR + MAGELLAN

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Ilustração científica editorial do planeta Vênus coberto por nuvens douradas de ácido sulfúrico, com setas curvas indicando a rotação retrógrada de leste para oeste e um pequeno Sol nascendo no lado oeste do horizonte, estilo National Geographic

A DECLARAÇÃO

Vênus é o planeta mais teimoso do sistema solar. Ele demora 243 dias terrestres para girar uma única vez em torno do próprio eixo, mas leva só 225 para dar a volta completa ao redor do Sol. Faça a conta: lá o dia é mais longo que o ano inteiro. E ainda tem o detalhe mais estranho. Enquanto quase todos os planetas giram para o mesmo lado, Vênus roda ao contrário, de leste para oeste. Se você furasse as nuvens e olhasse o céu, veria o Sol nascer no oeste e se pôr no leste.

Vênus é o planeta mais teimoso do sistema solar. Ele demora 243 dias terrestres para girar uma única vez em torno do próprio eixo, mas leva só 225 para dar a volta completa ao redor do Sol. Faça a conta: lá o dia é mais longo que o ano inteiro. E ainda tem o detalhe mais estranho. Enquanto quase todos os planetas giram para o mesmo lado, Vênus roda ao contrário, de leste para oeste. Se você furasse as nuvens e olhasse o céu, veria o Sol nascer no oeste e se pôr no leste.

I

O Mecanismo

Vênus é o planeta mais parecido com a Terra em tamanho e em massa, e também o mais fechado de todos. Uma camada permanente de nuvens de ácido sulfúrico cobre o planeta inteiro, sem uma única fresta. Nenhum telescópio ótico jamais enxergou o chão de Vênus. Por séculos, ninguém fazia ideia de quão rápido aquela bola girava lá embaixo.

Os astrônomos tentaram deduzir a rotação seguindo as manchas das nuvens, e erraram feio. As estimativas iam de 24 horas, como na Terra, até 225 dias, o mesmo tempo da volta ao redor do Sol. O problema é que as nuvens têm vida própria: elas correm muito mais rápido que a superfície embaixo delas, então cronometrar a nuvem não diz nada sobre o chão.

A resposta só veio com o radar. No começo dos anos 1960, antenas gigantes como a de Goldstone, na Califórnia, e a de Arecibo, em Porto Rico, dispararam ondas de rádio contra Vênus. Ao contrário da luz visível, o rádio atravessa a nuvem, bate na rocha sólida e volta. Pela primeira vez alguém tocou o chão de Vênus, mesmo que só com um eco.

O truque para ler a rotação está nesse eco. Uma borda do planeta gira vindo na sua direção, a outra girando embora. A onda que volta da borda que se aproxima chega com a frequência um pouco mais alta, e a da borda que se afasta, um pouco mais baixa. Essa diferença, o efeito Doppler, abre o sinal num leque. A largura do leque entrega a velocidade do giro, e acompanhar os pontos da superfície ao longo dos dias entrega o sentido.

O número que voltou deixou todo mundo perplexo. Vênus gira uma vez a cada 243 dias terrestres, mais devagar que qualquer outro planeta, e no sentido invertido. Quase todo o sistema solar herdou o giro da nuvem original que formou o Sol e roda para o mesmo lado. Vênus, sozinho junto com Urano, teima em rodar ao contrário.

Vale separar duas contas que costumam se confundir. O giro completo em torno do eixo, medido contra as estrelas, leva 243 dias. Mas como Vênus roda para trás enquanto avança na órbita, o intervalo de um nascer do Sol até o próximo é bem menor, cerca de 117 dias terrestres. Ou seja, cabem quase dois dias solares dentro de um único ano venusiano.

 
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II

Por que Importa

A pergunta que fica é a mais difícil de todas: o que consegue frear um planeta inteiro até quase parar e ainda inverter o sentido do giro? Um mundo com quase o tamanho da Terra não desacelera à toa. Alguma coisa muito forte agiu sobre Vênus por bilhões de anos.

Uma hipótese aposta na violência. Um impacto colossal, no começo do sistema solar, teria acertado Vênus com força suficiente para virar o planeta de cabeça para baixo ou travar a rotação num freio brusco. É plausível, mas exige um golpe absurdamente bem calibrado, e por causa disso muitos cientistas preferem a segunda explicação.

A segunda é a maré. Não a maré do mar, e sim a que a gravidade do Sol levanta na própria rocha do planeta e, principalmente, no ar. O Sol deforma Vênus de leve e cria uma corcova que funciona como alavanca. Ao longo de eras, essa alavanca torce a rotação e vai roubando velocidade do giro, pouco a pouco.

O detalhe decisivo é a atmosfera. O ar de Vênus é cerca de 90 vezes mais denso que o da Terra, uma manta pesadíssima em cima da superfície. O Sol aquece o lado iluminado, o ar incha ali e forma uma maré térmica que empurra a rotação para o lado oposto ao da maré da rocha. As duas forças brigam, e o equilíbrio entre elas prendeu Vênus nesse giro lento e invertido.

Há ainda a chance de que Vênus tenha capotado. O eixo do planeta está inclinado quase 180 graus, praticamente de ponta-cabeça. Nessa leitura, Vênus continuaria girando para o lado normal, só que virado ao contrário, o que de fora parece rotação invertida. Capotar ou frear e reverter dão no mesmo resultado que o radar mede, e talvez os dois tenham acontecido juntos.

E o freio não parou. Radares modernos, ao comparar medidas separadas por anos, notaram que a duração do dia venusiano oscila em alguns minutos de uma década para a outra. O suspeito é a própria atmosfera: lá em cima o ar dá a volta no planeta a cada quatro dias, umas 60 vezes mais rápido que a superfície, e essa ventania eterna arrasta o chão. Vênus ainda está sendo empurrado, agora mesmo.

 
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III

A Fonte

Radar astronômico (1961 a 1965). As primeiras medidas confiáveis da rotação de Vênus vieram de antenas como Goldstone, nos Estados Unidos, e Arecibo, em Porto Rico, que revelaram o giro lento e retrógrado ao rebater ondas de rádio na superfície escondida sob as nuvens.

NASA, sonda Magellan (1990 a 1994). Em órbita de Vênus, a Magellan mapeou 98% da superfície com radar e fixou o período de rotação em cerca de 243 dias terrestres, no sentido retrógrado, o valor usado como referência até hoje.

ESA, Venus Express, combinada com os dados da Magellan. Ao longo de cerca de 16 anos, a comparação mostrou que a duração do dia mudou em alguns minutos, indício de que a atmosfera super-rotativa troca momento com a superfície e mexe no ritmo do planeta.

Peer-reviewed. Modelos de maré atmosférica térmica, desenvolvidos por Correia e Laskar no início dos anos 2000, mostram como o equilíbrio entre a maré da rocha e a maré do ar pode levar Vênus a um giro lento e invertido, com a possibilidade de o eixo ter capotado no processo.

 

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