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Nenhum outro animal conhecido sai vivo do vácuo aberto. O tardígrado sai. E ainda empurra para frente a geração seguinte.
Mede menos de um milímetro, tem oito patas e garras, vive em musgo e poça d'água. O que o torna quase indestrutível não é força. É a capacidade de desligar a própria vida sem morrer.
I
O Mecanismo
O tardígrado, o urso-d'água, sobrevive por uma habilidade chamada criptobiose: diante de seca, frio extremo ou falta de oxigênio, ele expulsa quase toda a água do corpo e entra em animação suspensa. Encolhe numa estrutura compacta, o tun, e o metabolismo cai para perto de zero. Ele para de viver sem morrer.
Sem água, ele a substitui por moléculas protetoras. A pesquisa recente aponta proteínas exclusivas do grupo, as tardigrade-specific intrinsic disordered proteins, que ao secar formam uma matriz vítrea. Essa matriz envolve membranas, DNA e enzimas como âmbar fóssil envolve um inseto, e os mantém intactos quando não há água para sustentar a química da vida.
Em 2007, a Agência Espacial Europeia testou o limite. No experimento TARDIS, a bordo da cápsula FOTON-M3, amostras desidratadas foram expostas do lado de fora da nave em órbita: parte só ao vácuo, parte ao vácuo somado à radiação solar bruta, sem o filtro da atmosfera. Após dez dias voltaram.
Reidratados, muitos dos expostos só ao vácuo andaram em minutos. Entre os que enfrentaram a radiação UV mais intensa, a sobrevivência foi baixa, mas algumas fêmeas seguiram vivas e puseram ovos que eclodiram em filhotes saudáveis.
II
Por que Importa
Isso alarga onde a vida pode existir.
Se um animal sobrevive ao vácuo, ao frio absoluto e à radiação que rompe DNA, a fronteira da habitabilidade é mais larga do que se imaginava, e a ideia de organismos atravessando o espaço dentro de rochas deixa de ser ficção e vira hipótese testável.
Mais perto de casa, as proteínas vítreas do tardígrado já são estudadas para estabilizar vacinas e células sem refrigeração, guardando o frágil em estado seco até a hora de acordar.
III
A Fonte
Jönsson, K. I., Rabbow, E., Schill, R. O., Harms-Ringdahl, M., & Rettberg, P. (2008). Tardigrades survive exposure to space in low Earth orbit. Current Biology, 18(17), R729-R731.
Experimento TARDIS, a bordo da missão FOTON-M3 da Agência Espacial Europeia, setembro de 2007. Espécies testadas: Richtersius coronifer e Milnesium tardigradum. Exposição ao vácuo do espaço e à radiação solar UV por cerca de dez dias em órbita baixa. Peer-reviewed.
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