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Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 054

O FENÔMENO DO DIA

Seu corpo brilha no escuro e você nunca vai enxergar

Em toda pele humana, com pico de brilho no rosto e ritmo que sobe e desce ao longo do dia

VERIFICADO, PLOS ONE, 2009

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Ciência Bizarra 

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Ilustração científica editorial de um rosto humano no escuro emitindo uma tênue bioluminescência azul-esverdeada, pontos de luz saindo da pele como fótons, o rosto brilhando mais que o resto do corpo, estilo National Geographic

A DECLARAÇÃO

Sente-se num quarto totalmente escuro. Você não vê nada, mas seu corpo está brilhando. Cada centímetro da sua pele emite fótons de luz visível neste exato instante, uma bioluminescência tão fraca que o olho humano precisaria ser mil vezes mais sensível para notar. Uma câmera especial já capturou esse brilho, e ele é mais intenso no rosto.

Sente-se num quarto totalmente escuro. Você não vê nada, mas seu corpo está brilhando. Cada centímetro da sua pele emite fótons de luz visível neste exato instante, uma bioluminescência tão fraca que o olho humano precisaria ser mil vezes mais sensível para notar. Uma câmera especial já capturou esse brilho, e ele é mais intenso no rosto do que em qualquer outra parte do corpo.

I

O Mecanismo

A luz que sai do seu corpo não é a luz infravermelha do calor, aquela que qualquer câmera térmica enxerga. É luz visível de verdade, na mesma faixa que seus olhos deveriam captar, só que fraca demais. A diferença entre o brilho que você emite e o mínimo que a visão humana consegue detectar é de cerca de mil vezes. Está lá, mas mora abaixo do limiar do olho.

Vale separar bem essas duas coisas, porque quase todo mundo confunde. O calor do corpo é radiação infravermelha, invisível por natureza, e é ela que aparece nas imagens coloridas de câmera térmica. O brilho de que falamos aqui é outro, é luz na faixa que você enxergaria normalmente se ela fosse mil vezes mais forte, do verde ao vermelho. Nenhuma câmera térmica comum registra esse fenômeno, ele exige um tipo de sensor completamente diferente.

A origem desse brilho está no metabolismo. Cada célula do seu corpo queima nutrientes com oxigênio o tempo todo, e esse processo produz moléculas altamente reativas conhecidas como radicais livres. Quando esses radicais reagem com gorduras e proteínas dentro da célula, parte da energia liberada não vira calor nem movimento, ela escapa na forma de um único fóton de luz.

Some isso por todas as trilhões de células ativas ao mesmo tempo e você tem um corpo que reluz de forma contínua. O nome técnico do fenômeno é emissão ultrafraca de fótons, ou biofotônica espontânea. Não é a mesma coisa que a bioluminescência de um vagalume, que evoluiu uma química dedicada só para emitir luz. No seu caso, o brilho é um subproduto inevitável de estar vivo e respirando.

A intensidade é minúscula. Estamos falando de algo na ordem de poucas dezenas a poucos milhares de fótons por centímetro quadrado por segundo, dependendo da parte do corpo. Um vagalume, em comparação, emite tanta luz por essa mesma área que ele é bilhões de vezes mais brilhante que a sua pele. O seu brilho vive num regime que só instrumentos de laboratório conseguem alcançar.

Para capturar algo tão fraco, os pesquisadores usaram câmeras com sensores resfriados a temperaturas muito baixas, capazes de contar fótons individuais dentro de câmaras completamente vedadas contra qualquer luz externa. Só assim, no escuro absoluto, o brilho tênue da pele humana consegue emergir do fundo e ser registrado como imagem.

 
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II

Por que Importa

O achado mais curioso do estudo não foi que o corpo brilha, isso já se suspeitava. Foi o padrão desse brilho ao longo do dia. Os pesquisadores acompanharam voluntários por horas e viram que a emissão de luz sobe e desce num ritmo, mais fraca de manhã cedo e atingindo o ponto mais alto por volta do meio da tarde, acompanhando o relógio biológico interno do metabolismo.

Havia também um mapa no corpo. A luz não sai de forma uniforme, o rosto brilha bem mais que o tronco, os braços ou as pernas. A explicação mais provável é que a pele do rosto fica exposta ao sol e tem mais melanina e mais atividade metabólica na superfície, o que aumenta a produção dos fótons captados pela câmera.

Isso abre uma janela inesperada para a medicina. Como o brilho vem diretamente do estresse oxidativo dentro das células, ler esse brilho é uma forma de medir, sem tocar em nada, quão intensa está a queima metabólica de uma região do corpo. Em teoria, uma câmera sensível o bastante poderia detectar áreas com metabolismo alterado antes que qualquer sintoma aparecesse.

Pesquisadores já exploram a ideia de usar essa emissão como um marcador de saúde. Regiões inflamadas, tecidos sob estresse ou desequilíbrios no funcionamento das células tendem a alterar a quantidade de radicais livres e, portanto, a quantidade de luz emitida. Mapear esse brilho seria como ler um termômetro do metabolismo, só que feito de fótons em vez de temperatura.

A vantagem seria enorme diante de outros exames. Nada de radiação ionizante, nada de contraste injetado, nada de encostar sensores na pele. Bastaria uma câmara escura, uma câmera boa o suficiente e paciência para contar fótons. O corpo entregaria por conta própria um retrato do que anda queimando mais rápido do que deveria por dentro, só pela luz que ele já emite de graça.

Há ainda a camada mais desconcertante. O fenômeno significa que a fronteira entre um corpo vivo e um objeto que apenas reflete luz é mais borrada do que parece. Você não é só iluminado pelo mundo, você é uma fonte de luz por conta própria, ininterrupta, silenciosa, invisível. Toda vez que apaga a lâmpada e acha que está no escuro, o escuro nunca é completo, porque uma parte dele é feita de você.

 
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III

A Fonte

Kobayashi, M., Kikuchi, D., & Okamura, H. (2009). Imaging of Ultraweak Spontaneous Photon Emission from Human Body Displaying Diurnal Rhythm. PLoS ONE.

Peer-reviewed. A equipe japonesa usou câmeras ultrassensíveis capazes de contar fótons individuais para fotografar o brilho tênue de voluntários mantidos no escuro total, registrando pela primeira vez uma imagem clara da emissão de luz visível do corpo humano e do seu ritmo ao longo do dia.

O estudo confirmou que a intensidade dessa emissão varia num ciclo diário, subindo e descendo em sincronia com o relógio biológico do metabolismo, e que o rosto é a região mais luminosa, um padrão consistente entre os participantes acompanhados.

Trabalhos posteriores em biofotônica reforçaram que essa luz nasce das reações entre radicais livres e moléculas dentro das células, ligando diretamente o brilho ao estresse oxidativo e abrindo caminho para usar a emissão de fótons como um possível sinal do estado metabólico de tecidos vivos.

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