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A história de que o vidro é um líquido que escorre devagar é bonita e falsa. Os vitrais antigos são mais grossos embaixo por como foram feitos, não por terem pingado. À temperatura ambiente, o vidro levaria mais que a idade do universo para escorrer.
I
O Mecanismo
O mito nasce de um mal-entendido sobre o que o vidro é. Quando o vidro derretido esfria, ele não se organiza num arranjo cristalino regular como a água que vira gelo.
As moléculas congelam no lugar, no meio da bagunça em que estavam, formando o que se chama sólido amorfo: um material sem estrutura ordenada, mas rígido.
Por causa dessa desordem interna, durante muito tempo se repetiu que o vidro seria um líquido com viscosidade altíssima, escoando lento demais para a vista perceber.
O problema é a conta. Para um líquido fluir, suas moléculas precisam se rearranjar, e o tempo médio que elas levam para isso se chama tempo de relaxamento. No vidro de janela à temperatura ambiente, esse tempo é absurdamente longo.
Quando se faz a medição, com base na viscosidade real do material, o número que aparece supera os 13,8 bilhões de anos de idade do universo, por margens gigantescas. Em escala humana, o vidro simplesmente não escoa. Ele é tão sólido quanto qualquer metal.
E os vitrais que parecem mais grossos na base? A explicação é fabricação, não fluxo. O vidro medieval era soprado e girado em discos ou cilindros, depois cortado em folhas. O processo deixava cada folha desigual, mais espessa de um lado.
Os vidreiros da época, ao montar os painéis, tendiam a apoiar a borda mais pesada para baixo, por estabilidade e bom senso. A base mais grossa é a marca do método de chumbo da Idade Média, não de séculos de gotejamento.
II
Por que Importa
Esse é o caso raro em que a intuição erra na direção mais charmosa. A ideia do vidro pingando é poética, fácil de contar, e por isso virou lenda de guia de museu.
Mas ela esconde algo mais interessante: o vidro pertence a uma categoria estranha de matéria, nem cristal nem líquido, que a física ainda não terminou de entender. Saber separar o fenômeno bonito do fenômeno real é o músculo central do ceticismo.
E o vidro amorfo, longe de escorrer, é hoje peça de ponta em fibra óptica, telas e armazenamento de dados.
III
A Fonte
Zanotto, E. D. (1998). Do cathedral glasses flow? American Journal of Physics, 66(5), 392-395.
Peer-reviewed. O estudo calcula o tempo de relaxamento do vidro de janela a partir de sua viscosidade e demonstra que, à temperatura ambiente, ele excede em muito a idade do universo, descartando o escoamento como causa da espessura dos vitrais antigos.
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