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O som mais alto registrado pela humanidade rompeu tímpanos a dezenas de quilômetros de distância. A onda de pressão da explosão de Krakatoa deu quatro voltas no planeta, marcada por barômetros do mundo todo. Um estrondo virou dado global.
I
O Mecanismo
O personagem é uma onda de pressão. Todo som é exatamente isso: uma variação rápida na pressão do ar, que comprime e descomprime as moléculas e chega ao tímpano como um empurrãozinho que ele consegue medir.
Quanto maior a variação de pressão, mais alto o som, e essa intensidade é contada em decibéis numa escala que não é linear. Cada salto de 10 decibéis significa um som dez vezes mais intenso. Uma conversa fica perto de 60, um show alto bate em 120, e a dor já começa antes disso.
Quando o Krakatoa explodiu, em 27 de agosto de 1883, a variação de pressão foi tão monstruosa que o barômetro da estação de gás em Batávia, a 160 km dali, marcou um pulso que, calculado em decibéis na origem, aponta para algo perto de 310. Para comparar, esse número está muito acima de qualquer som que um ouvido humano poderia simplesmente escutar.
A bordo de um navio britânico a 64 km da ilha, o capitão registrou no diário que mais da metade da tripulação teve os tímpanos rompidos na hora.
E há um limite escondido nisso. No nível do mar, a pressão do ar é de cerca de 101 mil pascals. Um som só pode comprimir o ar até o ponto em que, no vale da onda, a pressão chega a zero, ou seja, vácuo. Esse teto corresponde a aproximadamente 194 decibéis.
Passou disso, e o que viaja já não é mais uma onda de som que vai e volta de forma suave: vira uma onda de choque, uma frente de pressão que empurra o ar para frente como um soco. Foi isso que saiu do Krakatoa.
Por isso barômetros do mundo inteiro, em Londres, em Washington, no Pacífico, registraram a passagem dessa frente de pressão dando voltas no planeta. Os dados mostram a onda contornando a Terra cerca de quatro vezes em cada sentido antes de finalmente sumir nos instrumentos.
II
Por que Importa
Esse episódio mostra que volume não é infinito. Estamos acostumados a pensar que basta aumentar a potência para o som ficar sempre mais alto, mas o ar tem um teto físico.
Por volta de 194 decibéis, a onda atinge o vácuo no seu ponto mais baixo e não tem como ficar mais intensa sem deixar de ser som no sentido comum. Daí para cima, a energia continua existindo, só que na forma de onda de choque, que é o que sai de explosões e do estouro de aviões supersônicos.
O Krakatoa é o caso documentado mais extremo desse fenômeno na história registrada. Ele transforma uma ideia abstrata, a de que existe um limite para o quão alto algo pode soar, em um registro concreto: tímpanos rompidos a 64 km e uma assinatura de pressão lida por instrumentos em todos os continentes.
III
A Fonte
Symons, G. J. (Ed.). (1888). The Eruption of Krakatoa, and Subsequent Phenomena. Report of the Krakatoa Committee of the Royal Society. London: Trübner & Co.
Peer-reviewed.
O relatório oficial da Royal Society reuniu medições barométricas de estações em todo o mundo, documentou que a onda de pressão da erupção de 27 de agosto de 1883 circulou o globo várias vezes em ambos os sentidos, e registrou relatos de que o estrondo foi ouvido a milhares de quilômetros e causou ruptura de tímpanos em embarcações próximas, consolidando o evento como o som mais intenso de que se tem registro instrumental.
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