|
No fundo do Mediterrâneo, uma única planta se copia por quilômetros e pode ter cem mil anos. Se a idade se confirmar, é o ser vivo mais antigo já encontrado. Algo que brotou antes do Homo sapiens existir ainda está vivo lá embaixo.
I
O Mecanismo
O personagem é a Posidonia oceanica, uma planta marinha que só existe no Mediterrâneo e forma os chamados prados submarinos. Ela não é uma alga: tem raiz, caule e folhas verdadeiras, e faz flor debaixo d'água. Pode se reproduzir por semente, como qualquer planta, mas tem um segundo truque.
A partir de um caule rastejante enterrado na areia, ela vai brotando lateralmente e produzindo cópias geneticamente idênticas de si mesma. É o que se chama de crescimento clonal: um só indivíduo que se espalha sem nunca trocar de DNA.
Para medir até onde ia essa cópia, pesquisadores coletaram amostras de prados ao longo de mais de 3.500 km de Mediterrâneo e leram o DNA de cada uma por uma técnica chamada genotipagem por microssatélites, que compara trechos repetidos do genoma capazes de revelar se duas plantas distantes são, na verdade, o mesmo clone.
O resultado foi um caso extremo entre Ibiza e Formentera: pontos separados por cerca de 8 km de prado carregavam exatamente a mesma assinatura genética. Tudo aquilo era um organismo só.
Daí sai a idade. A Posidonia avança poucos centímetros por ano. Para um único clone cobrir 8 km de mar nesse ritmo, o cálculo aponta algo entre milhares e até 100 mil anos de crescimento contínuo.
Não é uma planta que viveu 100 mil anos como um animal vive um século: é uma linhagem que se copiou sem parar, sem nunca morrer por inteiro, desde antes do fim da última era glacial.
II
Por que Importa
Essa planta confunde a própria noção de indivíduo. Estamos acostumados a contar a vida em corpos que nascem, envelhecem e morrem, e a idade do organismo mais antigo deveria caber numa biografia.
A Posidonia mostra que existe outra forma de durar: não resistir como um corpo, e sim se recopiar indefinidamente, de modo que o começo da linhagem é praticamente impossível de localizar no tempo. E há um lado urgente nisso.
Esses prados guardam carbono, seguram o sedimento e sustentam a vida do raso ao fundo do Mediterrâneo, mas crescem devagar demais para se refazer se forem destruídos. O que levou 100 mil anos para existir não volta na escala de uma vida humana.
III
A Fonte
Arnaud-Haond, S., Duarte, C. M., Diaz-Almela, E., Marbà, N., Sintes, T., & Serrão, E. A. (2012). Implications of extreme life span in clonal organisms: millenary clones in meadows of the threatened seagrass Posidonia oceanica. PLOS ONE, 7(2), e30454.
Peer-reviewed. O estudo genotipou prados de Posidonia oceanica por toda a bacia do Mediterrâneo usando marcadores microssatélites, identificou clones individuais que se estendem por até 8 km e estimou, a partir das taxas de crescimento da espécie, idades de milhares a cerca de 100 mil anos, colocando esses prados entre os organismos mais longevos conhecidos.
|
RECOMENDAÇÃO DE NEWSLETTER
A Origem das Palavras
A história escondida atrás de uma palavra por dia. De onde veio, como mudou e o que isso revela. Etimologia que vira repertório.
|
Até o próximo fenômeno verificado.
|