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Existe um planeta azul onde chover é fatal: a atmosfera é tão quente que o silicato vira gota de vidro. E o vento de milhares de quilômetros por hora faz a chuva cortar de lado. O azul bonito esconde o clima mais cruel já catalogado.
I
O Mecanismo
O personagem é o HD 189733b, um gigante gasoso do tipo Júpiter quente: tem massa parecida com a de Júpiter, mas orbita coladíssimo na sua estrela, a uma distância 30 vezes menor que a da Terra ao Sol. Uma volta completa dura só pouco mais de dois dias.
Tão perto do fogo, o lado voltado para a estrela ferve a mais de 900°C. Nessa temperatura, o que aqui seria poeira e areia se comporta de outro jeito: compostos de silicato, a mesma família de minerais que forma o vidro, ficam suspensos no ar quente como uma névoa permanente.
A cor entrega parte da história. Medindo a luz que o planeta reflete, astrônomos descobriram que ele é de um azul-cobalto intenso, mais saturado que o da Terra. Só que esse azul não vem de oceano nenhum.
A explicação mais aceita é que partículas de silicato espalhadas pela atmosfera desviam a luz azul da estrela, do mesmo modo que o ar espalha a luz do nosso céu. O azul, ali, é o brilho de uma atmosfera carregada de grãos que viram vidro.
E há o vento. A diferença de temperatura entre o lado eternamente iluminado e o lado escuro do planeta cria correntes atmosféricas violentas, estimadas em até cerca de 7.000 km/h, várias vezes a velocidade do som na Terra.
Nesse cenário, as gotículas de silicato condensadas não despencam em linha reta como a nossa chuva. Elas são arremessadas quase na horizontal. A imagem que sai dos dados é a de uma tempestade de estilhaços de vidro fundido voando de lado, a uma velocidade que nenhum furacão terrestre chega perto.
II
Por que Importa
Esse planeta desmonta a ideia de que clima é coisa de Terra. Estamos acostumados a pensar em chuva de água, neve, granizo, fenômenos de um mundo morno e coberto de oceano.
O HD 189733b mostra que, mudando a temperatura e a química, a própria matéria-prima do tempo muda: onde faz calor o bastante, o mineral vira o líquido que precipita, e o vento decide se a chuva cai ou corta.
Estudar esses extremos não é curiosidade gratuita. Cada atmosfera bizarra dessas calibra os modelos que os astrônomos usam para ler o clima de mundos distantes, inclusive os menores e mais parecidos com a Terra, onde um dia a pergunta vai ser se chove água, e não vidro.
III
A Fonte
Evans, T. M., Pont, F., Sing, D. K., Aigrain, S., Barstow, J. K., Désert, J.-M., Gibson, N., Heng, K., Knutson, H. A., & Lecavelier des Etangs, A. (2013). The deep blue color of HD 189733b: albedo measurements with Hubble Space Telescope Space Telescope Imaging Spectrograph at visible wavelengths. The Astrophysical Journal Letters, 772(2), L16.
Peer-reviewed. Usando o Telescópio Espacial Hubble, o estudo mediu a luz refletida pelo HD 189733b em comprimentos de onda visíveis e concluiu que o planeta tem um albedo azul profundo, atribuído ao espalhamento por partículas de silicato em alta altitude, consistente com uma atmosfera quente onde o silicato condensa em grãos de vidro arrastados por ventos extremos.
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