Ciência Bizarra #006 · O paradoxo da bússola na Anomalia Magnética do Atlântico Sul
Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 006

O FENÔMENO DA SEMANA

O paradoxo da bússola na Anomalia Magnética do Atlântico Sul

Sobre o Atlântico Sul, entre Brasil e África

VERIFICADO, PNAS, 2015

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Mapa de intensidade do campo magnético terrestre mostrando a Anomalia do Atlântico Sul

A DECLARAÇÃO

Existe uma região sobre o Brasil e o Atlântico Sul onde o campo magnético da Terra é anomalamente fraco. Satélites falham ao atravessá-la. Astronautas reportam flashes de luz de olhos fechados.

Sobre o Brasil, existe uma região do tamanho da América do Sul onde o campo magnético da Terra é até 30% mais fraco que o esperado. Satélites desligam sensores preventivamente. O Hubble não coleta dados durante a travessia. Astronautas na ISS reportam flashes brancos e azulados quando fecham os olhos.

Não é ficção científica. É geofísica documentada. O nome técnico é Anomalia Magnética do Atlântico Sul. E ela está crescendo.

I

O Fenômeno

Na região da Anomalia Magnética do Atlântico Sul, a intensidade do campo cai para menos de 22.000 nT. O centro fica sobre o Paraguai e o sul do Brasil, cobrindo mais de 7 milhões de km². John Tarduno (University of Rochester) publicou em 2015 na PNAS análises paleomagnéticas de fornos da Idade do Ferro na África do Sul, mostrando que a anomalia existe há pelo menos mil anos.

A causa profunda está ligada à Província de Baixa Velocidade Sísmica Africana (LLSVP), um bloco denso no manto inferior que perturba o fluxo de ferro no núcleo e gera zonas de fraqueza magnética recorrentes.

"The South Atlantic Anomaly represents a region where the Earth's inner magnetic field is especially weak, allowing charged particles from space to dip closer to the surface." Tarduno et al., PNAS, 2015.

II

Por que Importa

Satélites em órbita baixa sofrem aumento de erros em bits ao cruzar a zona. O Hubble suspende observações. Na ISS, astronautas documentam light flashes causados por prótons cósmicos que atravessam o vítreo do olho (Casolino et al., Advances in Space Research, 2003).

A anomalia migra para oeste a 0,3-0,5 graus/ano e cresceu 7% em 50 anos. A intensidade global do campo diminuiu 9% nos últimos 200 anos. A AMAS pode ser sinal precursor de uma inversão magnética. A última ocorreu há 780.000 anos. Estamos estatisticamente atrasados.

III

A Fonte

Tarduno, J. A., et al. (2015). Antiquity of the South Atlantic Anomaly and evidence for top-down control on the geodynamo. PNAS, 112(5), 1511-1516.

Peer-reviewed. Dados paleomagnéticos de sítios arqueológicos da Idade do Ferro, confirmados por missões SWARM (ESA), CHAMP (DLR) e MAGSAT (NASA).

IV

Mais Um Caso

A anomalia de Kursk. Na Rússia, o maior depósito de ferro do mundo (200 bilhões de toneladas de magnetita) faz bússolas desviarem até 45 graus. Mapeado desde 1773.

O polo que corre. Desde 1831, o polo norte magnético se moveu 2.250 km em direção à Sibéria. Em 2019, o World Magnetic Model teve que ser atualizado um ano antes do previsto.

O campo magnético que protege a vida não é uniforme, não é estável e não é permanente. Sobre o Brasil, é mais fino do que em qualquer outro lugar.

Até o próximo fenômeno verificado.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Os flashes de luz relatados por astronautas ao cruzar a Anomalia Magnética do Atlântico Sul foram estudados pela primeira vez durante a missão Apollo 11.

VVerdadeiro FFalso

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