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Sobre o Brasil, existe uma região do tamanho da América do Sul onde o campo magnético da Terra é até 30% mais fraco que o esperado. Satélites desligam sensores preventivamente. O Hubble não coleta dados durante a travessia. Astronautas na ISS reportam flashes brancos e azulados quando fecham os olhos.
Não é ficção científica. É geofísica documentada. O nome técnico é Anomalia Magnética do Atlântico Sul. E ela está crescendo.
I
O Fenômeno
Na região da Anomalia Magnética do Atlântico Sul, a intensidade do campo cai para menos de 22.000 nT. O centro fica sobre o Paraguai e o sul do Brasil, cobrindo mais de 7 milhões de km². John Tarduno (University of Rochester) publicou em 2015 na PNAS análises paleomagnéticas de fornos da Idade do Ferro na África do Sul, mostrando que a anomalia existe há pelo menos mil anos. A causa profunda está ligada à Província de Baixa Velocidade Sísmica Africana (LLSVP), um bloco denso no manto inferior que perturba o fluxo de ferro no núcleo e gera zonas de fraqueza magnética recorrentes.
"The South Atlantic Anomaly represents a region where the Earth's inner magnetic field is especially weak, allowing charged particles from space to dip closer to the surface." Tarduno et al., PNAS, 2015. |
II
Por que Importa
Satélites em órbita baixa sofrem aumento de erros em bits ao cruzar a zona. O Hubble suspende observações. Na ISS, astronautas documentam light flashes causados por prótons cósmicos que atravessam o vítreo do olho (Casolino et al., Advances in Space Research, 2003). A anomalia migra para oeste a 0,3-0,5 graus/ano e cresceu 7% em 50 anos. A intensidade global do campo diminuiu 9% nos últimos 200 anos. A AMAS pode ser sinal precursor de uma inversão magnética. A última ocorreu há 780.000 anos. Estamos estatisticamente atrasados.
III
A Fonte
Tarduno, J. A., et al. (2015). Antiquity of the South Atlantic Anomaly and evidence for top-down control on the geodynamo. PNAS, 112(5), 1511-1516. Peer-reviewed. Dados paleomagnéticos de sítios arqueológicos da Idade do Ferro, confirmados por missões SWARM (ESA), CHAMP (DLR) e MAGSAT (NASA).
IV
Mais Um Caso
A anomalia de Kursk. Na Rússia, o maior depósito de ferro do mundo (200 bilhões de toneladas de magnetita) faz bússolas desviarem até 45 graus. Mapeado desde 1773. O polo que corre. Desde 1831, o polo norte magnético se moveu 2.250 km em direção à Sibéria. Em 2019, o World Magnetic Model teve que ser atualizado um ano antes do previsto. O campo magnético que protege a vida não é uniforme, não é estável e não é permanente. Sobre o Brasil, é mais fino do que em qualquer outro lugar.
Até o próximo fenômeno verificado.
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