Ciência Bizarra · O cérebro decide antes de você ter consciência da decisão
Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 017

O FENÔMENO DO DIA

O cérebro decide antes de você ter consciência da decisão

Bernstein Center & Max Planck Institute, Alemanha

VERIFICADO, NATURE NEUROSCIENCE, 2008

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Visualização científica sóbria da atividade neural no córtex motor pré-frontal antes de um movimento voluntário

A DECLARAÇÃO

Quando você acha que decidiu mover a mão, seu cérebro já tinha começado a preparar o movimento. A intenção consciente chega centenas de milissegundos atrasada. Em alguns casos, sete segundos atrasada.

I

O Mecanismo

Em 1983, o neurofisiólogo Benjamin Libet pediu a voluntários que dobrassem o pulso quando quisessem, sem plano e sem sinal externo. Eles deviam apenas observar um ponto girando num relógio e relatar o instante exato em que sentiram a vontade de agir. Enquanto isso, eletrodos no couro cabeludo mediam a atividade elétrica do cérebro.

O resultado virou um dos achados mais incômodos da neurociência. Cerca de 350 milissegundos antes de a pessoa relatar ter decidido, o cérebro já mostrava um sinal de preparação chamado potencial de prontidão (em alemão, Bereitschaftspotential): uma onda lenta de atividade no córtex motor que precede qualquer movimento voluntário. A máquina começava a montar a ação antes de o dono dela saber que ia agir.

Por décadas, críticos disseram que o método de Libet era impreciso demais. Em 2008, John-Dylan Haynes e colegas refizeram o experimento dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, que mapeia a atividade de regiões inteiras do cérebro.

Pediram aos voluntários que escolhessem livremente apertar um botão com a mão esquerda ou direita.

Lendo apenas o padrão de ativação no córtex frontopolar e na área parietal, um classificador estatístico previu qual mão a pessoa escolheria com acerto acima do acaso, até sete segundos antes de ela ter consciência de ter decidido.

II

Por que Importa

A leitura fácil é apocalíptica: o livre-arbítrio é uma ilusão, você é um espectador do próprio cérebro. A leitura honesta é mais interessante. O que os experimentos mostram é que a decisão se forma como um processo, e a consciência entra perto do fim desse processo, não no começo.

Você ainda pode vetar a ação no último instante, e escolhas complexas e deliberadas podem funcionar de forma diferente de apertar um botão sem motivo. O que muda é a intuição de que você é a primeira causa de cada gesto.

Boa parte do que você chama de vontade já estava em curso quando a vontade apareceu.

III

A Fonte

Libet, B., Gleason, C. A., Wright, E. W., & Pearl, D. K. (1983). Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity (readiness-potential). Brain, 106(3), 623-642.

Soon, C. S., Brass, M., Heinze, H. J., & Haynes, J. D. (2008). Unconscious determinants of free decisions in the human brain. Nature Neuroscience, 11(5), 543-545.

Peer-reviewed. O estudo de 2008 usou ressonância magnética funcional e classificação por padrão (pattern classification) para prever a escolha antes do relato consciente. Replicações posteriores em córtex pré-frontal e parietal confirmaram a antecedência do sinal preparatório.

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