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Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 041

O FENÔMENO DO DIA

Há um camarão que dispara bolha mais quente que o Sol

Recifes tropicais, mangues e oceanos rasos

VERIFICADO, NATURE, 2001

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Ciência Bizarra 

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Camarão-pistola de coloração alaranjada num recife escuro, a pinça gigante fechando e disparando um jato de água com uma bolha de cavitação brilhante e um flash de luz azulado na ponta

A DECLARAÇÃO

Um camarão de poucos centímetros fecha a pinça tão rápido que rasga a água e cria uma bolha. Quando essa bolha implode, o interior chega a milhares de graus e solta um clarão de luz. O camarão-pistola atordoa a presa sem encostar nela, só com física.

Todo mundo imagina que o camarão é presa fácil no fundo do mar. Mas um deles fecha a pinça tão rápido que cria uma bolha, e o colapso dela concentra num ponto o calor de uma estrela. Ele caça sem tocar na presa, só com física.

I

O Mecanismo

O personagem aqui não é a pinça em si, é o vazio que ela deixa na água. O camarão-pistola tem uma das pinças gigante, desproporcional ao corpo, e a mantém armada, aberta e travada como o cão de uma arma.

Quando ele solta a trava, a pinça fecha numa fração de milésimo de segundo e cospe um jato de água a velocidade absurda pra frente. Esse jato é tão rápido que a pressão da água à sua volta despenca, e a água literalmente ferve a frio, virando uma bolha de vapor no meio do líquido. É o fenômeno chamado cavitação.

É aí que mora a explicação. A bolha nasce, cresce e em seguida colapsa sobre si mesma com uma violência enorme, porque a água ao redor volta a esmagá-la. Nesse instante final o gás preso dentro é comprimido a ponto de aquecer a milhares de graus, numa faixa que rivaliza com a superfície do Sol, e essa concentração brutal de energia produz um estalo altíssimo, uma onda de choque e até um flash de luz curtíssimo.

O barulho passa dos 200 decibéis debaixo d'água, mais alto que um tiro, e é justamente a onda de choque do colapso, não a pinça batendo, que atordoa o peixe pequeno na frente do camarão. Ele caça sem tocar na presa, só com a implosão da bolha.

O flash de luz é a parte mais estranha. Quando a bolha desaba, o pico de temperatura e pressão faz o gás lá dentro emitir um lampejo tão rápido e fraco que só instrumentos sensíveis captam. É o mesmo princípio da sonoluminescência de laboratório, luz nascendo do som e do colapso de uma bolha, aqui produzida por um bicho.

Não é a força bruta de duas partes da pinça se chocando. É a física de uma bolha de vapor que aparece e desaparece num piscar, concentrando num ponto minúsculo uma temperatura de estrela.

 
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II

Por que Importa

Esse resultado mostra que um animal de poucos centímetros domina a cavitação, o mesmo fenômeno que corrói hélices de navio e destrói bombas industriais. O que a engenharia trata como problema caro de desgaste, o camarão transformou em arma de caça de precisão.

O fenômeno também reescreveu o que se achava do próprio estalo. Por muito tempo se imaginou que o barulho vinha das duas metades da pinça se batendo, como um dedo estalando. As câmeras de alta velocidade mostraram que a origem é outra: é a bolha de cavitação colapsando, e o som e a luz saem desse colapso, não do choque das peças.

E há um lado prático nisso. Colônias inteiras desses camarões fazem um chiado constante que atrapalha sonares e a acústica submarina, a ponto de aparecer no registro de instrumentos militares. Estudar como um bicho gera cavitação controlada ajuda a entender materiais, jatos e a própria luz que nasce de bolhas em colapso no laboratório.

 
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III

A Fonte

Lohse, D., Schmitz, B., & Versluis, M. (2001). Snapping shrimp make flashing bubbles. Nature, 413(6855), 477-478.

Peer-reviewed. O grupo filmou o estalo do camarão-pistola com câmeras de altíssima velocidade e detectou que o colapso da bolha de cavitação emite um flash de luz curtíssimo, sinal de que o interior atinge temperaturas altíssimas no instante da implosão. Confirmou que o som, a onda de choque e a luz vêm da bolha, um fenômeno físico real e medido, não do simples bater da pinça.

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