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Um animal de meio milímetro, com oito patas e cara de aspirador de pó, foi enviado ao espaço sem traje, sem cápsula, sem proteção nenhuma. Ficou dez dias exposto ao vácuo orbital, à radiação cósmica e à dose completa de ultravioleta solar. Voltou vivo. Alguns ainda botaram ovos férteis depois.
O nome dele é tardigrado. E o que ele faz com o próprio corpo quando o ambiente se torna letal não tem paralelo no reino animal.
I
O Fenômeno
Tardigrados são invertebrados microscópicos do filo Tardigrada, com cerca de 1.300 espécies conhecidas. Medem entre 0,1 e 1,5 milímetro. Vivem em musgos, líquens, sedimentos marinhos e folhas de parques urbanos.
Em setembro de 2007, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançou a missão FOTON-M3 carregando o módulo BIOPAN-6, uma plataforma de exposição biológica montada do lado de fora da cápsula. Amostras de duas espécies, Richtersius coronifer e Milnesium tardigradum, foram colocadas em recipientes abertos ao vácuo espacial a 258 quilômetros de altitude. Algumas receberam apenas o vácuo. Outras, vácuo mais UV filtrado. Um terceiro grupo levou a dose completa: vácuo, UV-A, UV-B e UV-C sem filtro nenhum.
O voo durou dez dias. Na volta, os pesquisadores reidrataram as amostras. O grupo exposto apenas ao vácuo teve taxa de sobrevivência comparável ao controle terrestre. O grupo com UV parcial também sobreviveu em proporção alta. O grupo com espectro UV completo teve mortalidade elevada, mas não total. Alguns indivíduos de Milnesium tardigradum sobreviveram até à dose integral de radiação solar direta no espaço. Três fêmeas produziram ovos viáveis após a missão.
O mecanismo chama-se criptobiose. Quando o ambiente seca, congela ou se torna tóxico, o tardigrado retrai as patas, expulsa quase toda a água do corpo (passando de 85% para menos de 3%) e entra num estado chamado tun. O metabolismo cai a níveis indetectáveis. Uma proteína chamada Dsup (damage suppressor) forma uma camada protetora ao redor do DNA, reduzindo danos por radiação em até 40% (Hashimoto et al., Nature Communications, 2016).
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"These are the first animals to have survived the combined conditions of space vacuum, solar and galactic cosmic radiation in Low Earth Orbit." Jönsson et al., Current Biology, setembro de 2008.
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II
Por que Importa
O primeiro ponto é a panspermia. A hipótese de que organismos vivos podem ser transportados entre corpos celestes depende de um pré-requisito: alguma forma de vida precisa sobreviver ao trânsito interplanetário. Antes de 2007, nenhum animal multicelular havia demonstrado essa capacidade fora de simulações. O experimento de Jönsson mostrou que pelo menos um filo inteiro possui a maquinaria biológica para tolerar o espaço real.
O segundo ponto é a proteção ao DNA. A descoberta da proteína Dsup abriu uma linha de pesquisa em proteção celular contra radiação. Em 2016, Hashimoto transferiu o gene da Dsup para células humanas in vitro. As células modificadas sofreram 40% menos danos ao DNA quando expostas a raios X. O resultado gerou interesse da NASA e de grupos de radioterapia oncológica.
O terceiro ponto é filogenético. Os tardigrados existem há pelo menos 530 milhões de anos, com fósseis do Cambriano encontrados na Sibéria (Maas & Waloszek, 2001). Sobreviveram a todas as cinco grandes extinções em massa. Não é acidente evolutivo. É uma linhagem que construiu mecanismos de sobrevivência extrema antes dos dinossauros existirem.
III
A Fonte
Jönsson, K. I., Rabbow, E., Schill, R. O., Harms-Ringdahl, M., & Rettberg, P. (2008). Tardigrades survive exposure to space in low Earth orbit. Current Biology, 18(17), R729-R731.
Hashimoto, T., et al. (2016). Extremotolerant tardigrade genomics: a damage suppressor protein protects DNA. Nature Communications, 7, 12808.
Peer-reviewed. O experimento BIOPAN-6 foi conduzido pela ESA no satélite FOTON-M3, lançado em 14 de setembro de 2007 e recuperado em 26 de setembro de 2007. Financiamento: Swedish National Space Board, ESA, DLR.
IV
Mais Um Caso
A bactéria que sobreviveu três anos na Lua. Em 1967, a sonda Surveyor 3 pousou no Oceano das Tempestades. Em 1969, astronautas da Apollo 12 recuperaram a câmera e encontraram colônias viáveis de Streptococcus mitis no interior. A bactéria havia sobrevivido 31 meses no vácuo lunar, sem água, sem nutrientes, sob variações de -150 a +120 °C.
O verme que sobreviveu ao desastre do Columbia. Em 2003, o Columbia desintegrou-se na reentrada a mais de 20.000 km/h. Nos destroços, equipes encontraram caixas com Caenorhabditis elegans, nematoides de 1 mm. Os vermes estavam vivos. Documentado por Szewczyk et al. na Advances in Space Research (2005).
O espaço não é compatível com a vida. Alguns organismos não receberam esse aviso.
Até o próximo fenômeno verificado.
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