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Todo mundo aprende que o raio cai da nuvem pro chão. Mas acima das grandes tempestades existe uma família de descargas que faz o oposto: sobe dezenas de quilômetros rumo ao espaço. Por décadas foi só relato de piloto, até a câmera provar.
I
O Mecanismo
O personagem aqui é o espaço vazio acima da nuvem, não o solo. O raio comum acontece porque a base da tempestade acumula carga e descarrega no chão.
Mas quando um raio positivo muito forte esvazia o topo da nuvem de uma vez, sobra um campo elétrico gigante apontando pra cima, para as camadas rarefeitas da atmosfera que ficam a dezenas de quilômetros de altura.
É aí que mora a explicação. Lá em cima o ar é finíssimo, quase vácuo, e precisa de muito menos energia para se ionizar do que o ar denso perto do chão. O campo que sobrou depois do raio principal é forte o bastante para acender esse ar rarefeito, e a descarga se propaga para cima em vez de para baixo. Nasce um relâmpago que corre na direção do espaço.
Esses eventos ganharam nomes conforme a forma e a altura. Os sprites são clarões avermelhados que aparecem entre 50 e 90 quilômetros de altitude, com aparência de água-viva ou de cortina de filamentos, e duram poucos milésimos de segundo. Os jatos azuis saem do topo da nuvem e sobem como um cone estreito até uns 40 ou 50 quilômetros. Há ainda os elfos, anéis de luz que se espalham por centenas de quilômetros num piscar.
Por muito tempo isto foi só relato de piloto de avião que jurava ter visto luzes estranhas acima das tempestades, sem ninguém levar a sério. A confirmação veio quando câmeras sensíveis registraram o fenômeno por acaso e depois de propósito, mostrando que a descarga é real, repetível e mede dezenas de quilômetros de extensão vertical.
Não é que o raio comum às vezes erre a direção. É que existe uma família inteira de descargas que só acontece pra cima, num andar da atmosfera onde a física do ar é completamente diferente da que rege o raio que a gente conhece.
II
Por que Importa
Esse resultado mostra que a tempestade não termina no topo da nuvem. Acima dela existe uma zona elétrica ativa, ligando a parte baixa da atmosfera à borda do espaço, que durante décadas passou despercebida porque ninguém olhava pra cima na hora certa com o equipamento certo.
O fenômeno também é uma lição sobre relato descartado cedo demais. Pilotos descreveram essas luzes por anos e foram tratados como pouco confiáveis, até que o registro instrumental provou que estavam certos o tempo todo. Bastou apontar a câmera para o lugar ignorado para um andar inteiro da atmosfera aparecer. E há um lado prático nisso.
Entender essas descargas ajuda a proteger equipamentos, já que sprites e jatos ocupam justo a faixa de altitude por onde passam voos de alta altitude, balões e parte da eletrônica atmosférica. O céu acima da tempestade, que parecia o fim calmo do fenômeno, virou uma das regiões elétricas mais ativas e menos exploradas do planeta.
III
A Fonte
Sentman, D. D., Wescott, E. M., Osborne, D. L., Hampton, D. L., & Heavner, M. J. (1995). Preliminary results from the Sprites94 aircraft campaign: 1. Red sprites. Geophysical Research Letters, 22(10), 1205-1208.
Peer-reviewed. A campanha aérea filmou com câmeras de alta sensibilidade as descargas luminosas que sobem acima de tempestades, mediu que os sprites vermelhos se estendem por dezenas de quilômetros na alta atmosfera e confirmou que são um fenômeno elétrico real, orientado para cima, e não artefato óptico ou relato impreciso de observadores.
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