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Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 066

O FENÔMENO DO DIA

O elástico que esquenta ao esticar e encolhe ao ser aquecido

Nas anotações de John Gough lidas em Manchester em 1805, nos termopares de James Joule em 1859 e nas bancadas de refrigeração elastocalórica que hoje testam borracha no lugar de gás

VERIFICADO, LABORATÓRIO + PEER-REVIEWED

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Ilustração científica editorial de uma tira de elástico esticada entre dois dedos, com as cadeias de polímero visíveis por dentro passando de novelos embaralhados para fios alinhados, ondas de calor saindo da borracha tensionada, estilo National Geographic

A DECLARAÇÃO

Pegue um elástico comum, encoste no lábio e estique rápido. Ele esquenta na hora, e ao voltar ao tamanho normal esfria abaixo da temperatura da pele. Agora pendure um peso na tira e aqueça com um secador: em vez de ceder e alongar, como faria qualquer barra de metal, ela encolhe e levanta a carga. A borracha não guarda energia esticando ligações químicas, ela paga a conta em desordem. As cadeias de polímero enroladas ao acaso são forçadas a se alinhar, a entropia despenca e o calor sobra. John Gough descreveu o efeito em 1805 usando o próprio lábio como termômetro, e James Joule pôs números na conta em 1859.

Pegue um elástico comum, encoste no lábio e estique rápido. Ele esquenta na hora, e ao voltar ao tamanho normal esfria abaixo da temperatura da pele. Agora pendure um peso na tira e aqueça com um secador: em vez de ceder e alongar, como faria qualquer barra de metal, ela encolhe e levanta a carga. A borracha não guarda energia esticando ligações químicas, ela paga a conta em desordem. As cadeias de polímero enroladas ao acaso são forçadas a se alinhar, a entropia despenca e o calor sobra. John Gough descreveu o efeito em 1805 usando o próprio lábio como termômetro, e James Joule pôs números na conta em 1859.

I

O Mecanismo

Estique um arame de aço e você está brigando com ligações químicas. Os átomos saem das posições de equilíbrio, a energia interna do metal sobe, e a força que puxa o arame de volta vem dessa energia armazenada. Aqueça o mesmo arame e ele dilata, porque átomo agitado ocupa mais espaço.

A borracha joga outro jogo. Um elástico é uma malha de moléculas gigantes, cadeias com milhares de unidades de carbono enfileiradas, costuradas umas às outras por pontes de enxofre que a vulcanização instalou. Em repouso, cada cadeia dessas é um novelo embaralhado ao acaso.

O número de maneiras de embaralhar um novelo é absurdo. Existem trilhões de trilhões de arranjos em que a cadeia fica torta e curta, e um punhado ridículo de arranjos em que ela aparece quase reta. Entropia é a contagem desses arranjos, e o novelo torto ganha de goleada.

Ao esticar, você obriga a malha a abandonar a nuvem de arranjos tortos e ocupar o punhado de arranjos alinhados. A entropia do material cai. A força que puxa o elástico de volta contra o seu dedo não é mola de ligação tensionada, é a tendência estatística de voltar para a bagunça.

A termodinâmica separa as duas contas. Parte da força de qualquer sólido vem de energia armazenada, parte vem de entropia perdida. Na borracha, a parcela de energia é quase zero e sobra a parcela entrópica, que é proporcional à temperatura absoluta. Quanto mais quente, mais forte o puxão.

Daí o comportamento que parece defeito de fábrica. Aqueça um elástico que segura um peso e a força de retração aumenta, o equilíbrio se desfaz e a tira encolhe até erguer a carga alguns milímetros. O metal dilata com calor, a borracha carregada faz o contrário.

O calor no lábio é a outra face da mesma conta. Se a entropia da malha despenca e o estiramento é rápido demais para trocar calor com o ambiente, a desordem que sumiu do arranjo das cadeias reaparece como agitação térmica. A tira aquece alguns graus, o suficiente para a pele mais sensível do corpo perceber.

Solte e o filme roda ao contrário. As cadeias voltam a embaralhar, a entropia sobe, o material puxa calor de onde conseguir e o elástico fica frio. Existe um detalhe fino: abaixo de mais ou menos dez por cento de estiramento o efeito se inverte, porque nessa faixa a dilatação térmica comum ainda manda mais que a entropia.

Num esticão grande entra um bônus. A borracha natural se organiza em cristais quando muito alongada, e a cristalização libera calor por conta própria, somando ao aquecimento entrópico. Um estiramento de quatro ou cinco vezes o comprimento original esquenta bem mais do que a conta das cadeias sozinha previa.

Quem descreveu o fenômeno primeiro foi John Gough, naturalista inglês cego desde a primeira infância, numa comunicação de 1805 à sociedade literária e filosófica de Manchester. Sem enxergar, ele usou o lábio como sensor e registrou as duas metades do efeito, o aquecimento ao esticar e a contração sob calor.

Meio século depois, James Prescott Joule refez a experiência com termopares e balança, mediu o calor liberado em tiras de borracha vulcanizada e mostrou que a força de retração cresce em proporção direta à temperatura absoluta. O par de nomes ficou colado ao efeito para sempre.

 
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II

Por que Importa

A inversão do truque vira máquina de frio. Estique a borracha, espere ela despejar no ar o calor que gerou e então solte: ao voltar para a bagunça, a tira rouba calor de tudo que estiver encostado nela e fica mais fria que o ambiente. É um refrigerador sem gás e sem compressor.

O nome técnico é efeito elastocalórico, e o interesse não é acadêmico. Refrigeração e ar condicionado consomem perto de um décimo da eletricidade do planeta, e os fluidos que circulam nos compressores são gases de efeito estufa potentes que vazam de qualquer sistema com o tempo.

Um sólido que esfria ao relaxar dispensa o gás inteiro. Em 2019, um grupo liderado por Ray Baughman publicou na Science um esquema que torce e enrola as fibras em vez de apenas esticá-las, e mediu quedas de temperatura da ordem de dezesseis graus em fibras de borracha natural.

A liga de níquel e titânio joga no mesmo campeonato. Protótipos de bomba de calor elastocalórica com fios de nitinol já rodam em bancada na Alemanha, com eficiência teórica competitiva com a do compressor tradicional e sem uma gota de fluido refrigerante no circuito.

Falta o de sempre, durabilidade. Cada ciclo de estica e solta desperdiça energia em atrito interno, a borracha envelhece e racha, o nitinol é caro e exige tensões altas. Um aparelho que precisa repetir o ciclo milhões de vezes por ano ainda não sobrevive ao teste de bancada.

Na direção contrária dá para colher trabalho. Monte uma roda cujos raios sejam elásticos e aqueça só um lado dela. Os raios quentes encolhem, o centro de massa sai do eixo, e a roda gira sozinha enquanto a lâmpada estiver acesa. É um motor térmico movido a bagunça molecular.

A regra da força proporcional à temperatura também explica cacoete de gaveta. Elástico esquecido dentro de carro quente puxa mais forte que o elástico do armário, e borracha muito fria perde a elasticidade de vez, porque abaixo de certa temperatura as cadeias travam e o material vira vidro quebradiço.

A natureza usa a mesma mola há muito mais tempo. A elastina que dá recuo à aorta e a resilina das articulações de inseto são redes de cadeias embaralhadas que devolvem quase toda a energia recebida, e a pulga salta apostando na entropia de um bloco de proteína comprimido no quadril.

O fecho desmonta a intuição de mola. Um elástico e o ar comprimido dentro do pneu da bicicleta são a mesma máquina: em nenhum dos dois a força vem de ligação tensionada, ela vem da contagem de arranjos possíveis. Quem estica uma tira de borracha está apertando um gás feito de novelos.

 
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III

A Fonte

Memoirs of the Literary and Philosophical Society of Manchester, 1805. John Gough, em "A description of a property of caoutchouc, or Indian rubber", relatou que uma tira esticada encostada no lábio aquece de imediato e que a mesma tira, mantida sob peso constante, encolhe quando é aquecida.

Philosophical Transactions of the Royal Society, 1859. James Prescott Joule, em "On some thermo-dynamic properties of solids", mediu com termopares o calor liberado no estiramento da borracha vulcanizada e mostrou a proporção direta entre força de retração e temperatura absoluta, transformando a observação de Gough em lei.

The Physics of Rubber Elasticity, Oxford University Press, primeira edição de 1949. Leslie Treloar consolidou a teoria estatística construída por Werner Kuhn, Eugene Guth, Herman Mark e Paul Flory, na qual a elasticidade da borracha sai da contagem de conformações possíveis de cada cadeia.

Science, 2019. Run Wang, Shaoli Fang, Ray Baughman e colegas, em "Torsional refrigeration by twisted, coiled, and supercoiled fibers", demonstraram resfriamento por torção em fibras de borracha natural, nylon e nitinol, abrindo uma rota de refrigeração de estado sólido sem gás nenhum.

 

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