Ciência Bizarra #005 · Plantas se comunicam por rede de fungos
Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 005

O FENÔMENO DA SEMANA

Plantas se comunicam por rede de fungos

Florestas de abetos de Douglas, British Columbia, Canadá

VERIFICADO, NATURE, 1997

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Rede de micélio fúngico conectando raízes de árvores no solo de uma floresta

A DECLARAÇÃO

Árvores em florestas transferem carbono, nitrogênio e sinais de alerta entre si através de redes subterrâneas de fungos micorrízicos. Sem contato direto entre raízes.

Uma árvore-mãe de abeto de Douglas transfere carbono para mudas que crescem na sombra a metros de distância. Não por raízes conectadas. Não pelo ar. Pelo solo, através de filamentos fúngicos tão finos que cabem 10 mil no diâmetro de um fio de cabelo.

Suzanne Simard marcou carbono com isótopos radioativos, injetou numa árvore adulta e rastreou o percurso. O carbono apareceu nas mudas vizinhas em menos de 48 horas. Tinha viajado pela rede.

I

O Fenômeno

A Wood Wide Web é o nome informal para redes de fungos micorrízicos que conectam raízes de árvores diferentes. Em 1997, Suzanne Simard publicou na Nature o primeiro estudo demonstrando transferência bidirecional de carbono entre espécies mediada por fungos. Usando isótopos 13C e 14C, rastreou carbono da bétula (sol pleno) para o abeto (sombra).

A descoberta desafiou o modelo de competição florestal. Árvores-mãe (hub trees) funcionam como nós centrais, conectadas a até 47 vizinhas por fungos, transferindo mais carbono que árvores jovens (Simard, Forest Ecology and Management, 2015).

"Net transfer of carbon, nitrogen and water occurs between plants linked by a common mycorrhizal network. These networks can influence the establishment, survival, physiology and growth of trees." Simard et al., Nature, 1997.

II

Por que Importa

O impacto vai além da ecologia. Se árvores-mãe alimentam mudas pela rede, cortar as maiores colapsa o suporte nutricional das vizinhas. Song et al. (Ecology Letters, 2013) demonstraram que tomateiros conectados por micorrizas emitem sinais de defesa quando vizinhos são atacados. A rede funciona como alerta precoce.

Simard demonstrou que árvores-mãe transferem mais carbono para mudas geneticamente aparentadas, compatível com seleção de parentesco (Hamilton, 1964). Karst et al. (New Phytologist, 2023) questionaram a escala. A existência da rede não é questionada. O debate é sobre o quanto influencia a ecologia florestal.

III

A Fonte

Simard, S. W., et al. (1997). Net transfer of carbon between ectomycorrhizal tree species in the field. Nature, 388, 579-582.

Peer-reviewed. Mais de 2.000 citações. Replicações em florestas temperadas, boreais e tropicais. Financiamento: NSERC Canada, BC Ministry of Forests.

IV

Mais Um Caso

Acácias que avisam vizinhas pelo ar. Karban (UC Davis, Ecology Letters, 2014) demonstrou que artemísias que receberam compostos voláteis de vizinhas atacadas sofreram 60% menos dano na temporada seguinte.

Fungos que transmitem impulsos elétricos. Adamatzky (Royal Society Open Science, 2022) mediu pulsos com até 50 frequências distintas em micélios. Se fungos que conectam árvores também transmitem sinais elétricos, a rede é mais complexa do que Simard imaginou.

As árvores não são indivíduos isolados. A floresta é uma rede. E a rede tem infraestrutura fúngica.

Até o próximo fenômeno verificado.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: No estudo de Suzanne Simard publicado em 1997 na Nature, o carbono marcado com isótopos apareceu nas mudas vizinhas em menos de 48 horas após ser injetado numa árvore adulta.

VVerdadeiro FFalso

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